Saturday, October 22, 2005

Terceira corda

Amargor, por Zel
Tiquetaquetiquetaque, por Ivanzinho
O lado de dentro da tarde, por Siri
Desventura, por Kéures
Tique, taque, por Galego

Amargor, por Zel

Poderias ter evitado cair na vala comum e ter disposto as palavras rente a mim, enfrentando ouvidos e aguçando a retina banhada a pavor e ódio. Minha figura talvez, me dou o direito da incerteza, ficasse menos nivelada a terrenos rasteiros.

Tenho eu que despertar uma sinceridade não condizente com a tua conduta, se quiser manter algum rastro de dignidade enquanto padeço e careço na sofreguidão. Maldita foi a hora em que despejei confianças em ti. Não consigo dicernir se o meu feito maior representa ter te aberto espaços físicos na minha vida, ou se foi deixar minha alma desposar ao menor toque das tuas mãos.

Choro baixo, me afogo e me inundo por dentro. Embora minhas vontades direcionadas a ti residam em indignação latente, esta dor, tristeza e afins, são deveras despudoras. Não consigo esconder teus hematomas internos só com as mãos no rosto. Toco suavemente a superfície, mas fico pairado, inerte e vagante.

Foste desnecessária, se os fins que levariam à tua ida seriam sempre estes. Afinal, já não sabias que aqui se acumulavam implosões, reentrâncias desabadas e reconstruídas sem nenhum alicerce? Sem relevãncia. Teus parcos e previsíveis escritos nada me acrescentaram. A tua informação, para que saibas, me subtraiu de mim, como um polo negativo de ímã, sugou toda e qualquer perspectiva minha de ser.

É credível, estaria melhor se tivesse sido ludibriado por bons sentimentos, inclusive na partida. Eu, que nem mais recheio de pronome pessoal me considero, fiquei à deriva.

Amargor, por Zel

Poderias ter evitado cair na vala comum e ter disposto as palavras rente a mim, enfrentando ouvidos e aguçando a retina banhada a pavor e ódio. Minha figura talvez, me dou o direito da incerteza, ficasse menos nivelada a terrenos rasteiros.

Tenho eu que despertar uma sinceridade não condizente com a tua conduta, se quiser manter algum rastro de dignidade enquanto padeço e careço na sofreguidão. Maldita foi a hora em que despejei confianças em ti. Não consigo dicernir se o meu feito maior representa ter te aberto espaços físicos na minha vida, ou se foi deixar minha alma desposar ao menor toque das tuas mãos.

Choro baixo, me afogo e me inundo por dentro. Embora minhas vontades direcionadas a ti residam em indignação latente, esta dor, tristeza e afins, são deveras despudoras. Não consigo esconder teus hematomas internos só com as mãos no rosto. Toco suavemente a superfície, mas fico pairado, inerte e vagante.

Foste desnecessária, se os fins que levariam à tua ida seriam sempre estes. Afinal, já não sabias que aqui se acumulavam implosões, reentrâncias desabadas e reconstruídas sem nenhum alicerce? Sem relevãncia. Teus parcos e previsíveis escritos nada me acrescentaram. A tua informação, para que saibas, me subtraiu de mim, como um polo negativo de ímã, sugou toda e qualquer perspectiva minha de ser.

É credível, estaria melhor se tivesse sido ludibriado por bons sentimentos, inclusive na partida. Eu, que nem mais recheio de pronome pessoal me considero, fiquei à deriva.

Tiquetaquetiquetaque, por Ivanzinho

O cabelo embranquece e cai, não necessariamente nesta mesma ordem. As unhas endurecem, assim como o coração. O pau amolece, como a alma. A barriga se almofada, a bunda travesseira-se. As solas dos pés vão ficando grossas à medida em que a voz das mulheres vai ficando fina. A pressão sobe, os peitos caem. Os olhos querem óculos. Vêem menos e menos. A intuição quer liberdade. Vê mais e mais. Expressões ávidas e impávidas dão lugar a posturas plácidas e flácidas. Você vai e você volta.

A caneta tem a carga renovada feito xampú da natura. O ferro enferruja, o fusca dá aqueles problemas que a gente resolve chamando os amigos para empurrar. O nome do computador agora é obsoleto, não diferente dos softwares que carrega em sua vaga lembrança. A foto, agora amarelada perdeu a cor num jogo de bafo. O bafo perdeu o frescor num jogo de boca. Problemas no estômago.

Fala, bilhete, carta, email, bilhete, carta, fala. O Cachorrinho Samba dá lugar a História de O na prateleira com cupim e outros bichos. Camas aumentam, distâncias diminuem. O que era inflação virou juro. O que era juramento virou lenda. O que era madeira virou plástico. Plástico é sempre plástico. Ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã.

A paixão desapaixona, para reapaixonar-se. A fila anda, mas sempre aumenta. A velocidade reduz-se, o buraco cresce, acompanhando a cintura, a barba e o bigode. De carro zero a zero carro. De folha em branco a enciclopédia. De pinto a galo. De ovo a povo. Passo a passo, passo.
Um dia era gramofone. No outro era ipod. Sim, pode. Faca, espada, coragem, ignorância (revólver, bomba, covardia, erudição).

E Chico garante: Galo da Madrugada arrasta mais de um milhão e a festa não tem hora pra acabar.

Mas tem.

O lado de dentro da tarde, por Siri

"O segredo é dar impulso no pé mais forte. Você não é destro? Então."

O mais velho deu o exemplo, encostando-se na parede, cortando horizontalmente a calçada numa corrida curta, pousando o pé direito sobre a guia e lançando-se no espaço, vencendo a poça d'água que se acumulava por pouco mais de um metro na rua, entre dois carros estacionados.

Eram dois irmãos, de 12 e 8 anos, numa tarde com poucas opções de diversão. O mais velho propusera a brincadeira, que limitava-se a ultrapassar o obstáculo, num pulo, com pouco espaço para a corrida de impulsão. O mais novo temia que as pernas mais curtas brindassem-no com um indesejado banho de água empoçada. Mas a liderança do outro o incentivava.

Mais, o desafiava. Afinal, não é para isso que viemos à Terra? Para superar os que chegaram antes?

"Tudo bem, eu vou", aceitou, aplicando em sua entonação toda a dignidade que lhe permitiam o quase nada de anos que já vivera, e encostou-se na parede.

O mais velho postou-se ao lado do final da poça, como um juiz vigia a fronteira de uma quadra de tênis. "Espera, um pouco", recomendou, observando o início da rua. "Espera..." Um caminhão dobrou a esquina, vindo na direção da brincadeira, escondido dos olhos do mais novo, pelos carros estacionados em fila. "Só mais um pouquinho", orientou o mais velho, enquanto o veículo aproximava-se, desenvolvendo velocidade.

"Agora, pode pular".

Desventura, por Kéures

Nasceu assim – chorando tão baixo que o médico pensou que estivesse doente, um corpinho mole e miúdo, uma quietude tão grande que a mãe de primeira viagem (porém muito zelosa) lhe chacoalhava o corpo quando em vez para ver se estava vivo e respirando.

Andar, só quase aos dois anos. Falar, só perto dos três, mesmo assim nada de "ma-má" ou "pa-pá": a primeira palavra foi "dô", apontando pro peito, olhos rasos d’água. E todos sabiam que era "dor", mesmo, que ele queria dizer. Dor física? Não. Uma dor que, de pouquinho em pouquinho, a família percebia e aceitava – o menino tinha dores de alma.

Pequenino, sensível e com aqueles olhos profundamente pretos e tristes, virou alvo fácil na escola. Falei que foi primeiro em alguma coisa? Pois foi. Primeiro a ler. Naturalmente, não os livros que aos outros meninos de sua idade interessavam. Nada de "Casinha Feliz" nem "Lalá, Lelé, Lili, Loló ou Lulu". Interessou-se mesmo foi quando entrou na sala num fim de recreio, e ouviu a professora recitando uns versinhos bonitos de Cecília Meirelles.

Dali em diante, não parou mais – eram livros e livros e livros devorados todos os meses. Em casa, todos notaram a mudança: chorava menos, trocava algumas palavras com os adultos.

Não demorou a começar a rascunhar seus próprios versos. A princípio, timidamente. Depois, com uma desenvoltura impressionante, letra bela dos escritores de antigamente, caneta sem parar pelas tardes e noites afora.

Um tio troglodita e machão não custou a começar a falar que "o filho da Matilda é meio esquisito" e "sensível demais, não acham?". Não demorou para que a vizinhança começasse a concordar e os rapazolas da rua lhe aplicavam pelo menos uma bela sova por semana.

Mudo, calado, resignado, ele nunca revidava. Por dentro, sabia que não tinha vindo para sorrir ou passear despreocupado pelas ruas. Sabia de sua carga desde sempre.

Foi quando Salete apareceu. Não esqueceria nunca da data – 15 de janeiro – dia do seu aniversário. A casa ao lado estava vaga havia um ano e Salete havia se mudado para lá com os pais, justinho naquela data – a do seu aniversário.

Menina meiga e bela como ela só, Salete se encantou com o jeito calado e pensativo do vizinho logo, logo. Vivia no jardim de sua casa, esperando vê-lo sair pra escola ou voltar (sua única saída dia após dia havia anos) e, a cada passagem do rapaz, lançava um "bom dia" sorridente e derramado.

Aos poucos, ele foi ficando incomodado. Antes escrevia sobre o mundo que não conhecia, as viagens que nunca faria, as dores de amores que nunca teria. Mas agora... Agora havia alguém que era Salete e a Salete estava ali perto e parecia gostar dele e querê-lo por perto e talvez, talvez quem sabe ele pudesse até beijá-la, meu Deus! O que fazer?

Amanhecia o dia, e o pobre rapaz tinha vontade de saltar da cama, tomar um banho frio e cantar e até (pasmem!) escrever sonetos de amor dedicados a ela. Acordar passou a ser um sufoco: tinha que disfarçar os sorrisos que sua boca, involuntariamente, teimava em arreganhar, engrossar a voz que, teimosamente, queria dar "bom dia" com suavidade aos pais, fingir que não estava feliz. Mas meu Deus! Estava feliz! Isso não estava nos seus planos! Nunca havia estado!

E foi ficando acabrunhado, irritado, revoltado com aquela morneza que teimava em invadir seu coração. Alma desassossegada, começou a passar as noites insone, chorando por não conseguir parar de pensar em Salete, ainda mais por que ela lhe roubara um beijo na bochecha naqueles dias. "Maldita! Maldita!", esbravejava ele sozinho e depois, sem querer, sorria, só pra novamente chorar.

Num dia de garoa fina e nuvens escuras, desses que prevêem má sorte, a mãe o encontrou estirado no chão, olhos fixos, inerte. Dali para frente, nunca mais falou. Nenhum médico conseguiu dizer o que havia ocorrido. Uns falavam em derrame, outros em trauma, outros em ataque dos nervos, mas a mãe preferiu deixá-lo quieto.

A única visita que permitia era a de Salete que, depois do ocorrido, vinha vê-lo todas as tardes, e, após ler um pouco, debruçava-se sobre ele, beijava-o suavemente nos lábios e ia embora. Era o único momento do dia em que Rinaldo se remexia lá por dentro e sua mente raivosa soltava um grito que ninguém podia ouvir: "Maldita! Maldita!".

Tique, Taque, por Galego

tique, taque, tope o tempo, tente ter mais do que reste. Toque tudo, teste tanto quanto tenha tido veste de eterno - tope o tempo. Teime tanto quanto a peste. Tire o tanto que te sinta tão tentado a contorcer. Tente o todo, teime o tico, tope o tempo, tape a fresta donde todo tempo trilha desde o ontem ao fim da festa. Tá tombado, tique taque? Tique taque, meta a testa. Tome tento, tente certo - tempo tem dom de vencer. Troque tudo de estado tenha estado sempre alerta. Tope o tempo, tenha tino de lutar na hora certa que o tempo, desatino, toma a hora descoberta. Troque o texto, a textura, tente o trote, a traquitana. Tente ter o tempo todo o controle do que presta - tire todo o contorno: dorme à noite, pra quê siesta? Tique taque, tope o tempo, tome o todo pela réstia que te dê toco de tempo, uma alento, uma semana. Tique taque, tope o tempo, quanto tempo que te resta?

Wednesday, October 12, 2005

Segunda Corda

O Tempo, por Kéures
Aquele Dia, por Ivanzinho
Biu não sabia nascer, por Palim
Menininha Assustada, por Ana
Sultanesa, por Siri
Gula, por Zel

Gula, por Zel

E lá ia Rosana percorrer a sua rota diária. Eram pesarosos os passos - parecia que cada pé tinha que transportar uma carga. No meio do percurso, o espasmo de ansiedade fazia soar as 8h da manhã. Abriu a geladeira expandindo os dentes e dando vazão ao estômago: parecia ver um jogo completo de eletrodomésticos por trás das Portas da Esperança, tamanha a felicidade suscitada em ver comida.

Estavam ali os seus meios e fins de e para existência. Intercalava vocações: trabalhava para manter o grande labor de ingerir comida em tempo integral. Uma rosada senhora na missão de estufar o corpo para esmagar meos e receios internos. Entretanto, fazia muito de si em companhia do seu reflexo, uma pompa nascida de satisfação quanto maior fosse o metro quadrado.

Rosana era uma mulher de prazeres intensos, incontáveis, imensuráveis. Queria expandir o corpo também para alastrar possibilidade de gozo, numa gulosa altivez de luxúria. Rosana tinha desejos que se iniciavam no palato, no beliscar, amordaças e namoriscar de cada ponto da língua roçada nos alimentos.

Madrugada crescente, o corpo de Rosana minguava um ataque movido a ânsias. O deejo formava um sulco no seu corpo, que lacrimejava em vapores de suor ardente. Os clamores faziam rufar os seus sentidos, arfando em desassossego interno. Tateou o escuro com os olhos ainda cortinados de sono, guiados por instinto. Rosana abriu a geladeira e se alcançou, vertendo-os dentro e fora e do corpo.

Satisfazia vontades plenas, preenchendo valas de desejo, atiçando suas vaidades crescentes. Era passível de se afirmar que era ali, apenas rente a si mesma, que Rosana encontrava abrigo para seus gozos, se tornando a sua fonte para preencher com louvor cada reentrância de existência.

O tempo, por Kéures

As coisas se agigantam e o tempo passa e não passa tudo é tão pavoroso que fujo daqui deste papel que me decifra e me devora no qual sucumbo sem forças pra fingir que tudo está bem não há como negar que o tempo muda as coisas e que isso é um cu que goza ou que dói dependendo do que foi do que a gente queria que continuasse sendo do que a gente viaja pensando que poderia ter sido preciso de tempos de paz de pontuações e intervalos de sanidade pra poder prosseguir

Aquele dia, por Ivanzinho

No dia em que fui mais honesto, devolvi o dinheiro do troco que veio a mais. Não cruzei o sinal vermelho, nem mesmo o amarelo. Aceitei sem reclamar o pênalti que o juiz marcou e disse-lhe que na verdade eu deveria ter sido expulso. Cheguei pra ela e confessei que não a amava, mas que queria todo o sexo que ela quisesse me dar. Que o boquete dela era tudo de bom, mas que o papo era tudo de ruim.

No dia em que fui mais grosso já cheguei chutando a porta. Comi o feijão da geladeira dentro de um pão com manteiga, acompanhado de refrigerante que tirei direto do armário. Tirei catota daquela bem durinha e colei na parte de dentro da camisa. Antes do segundo arroto, puxei-a pelos cabelos e suguei seus lábios todos. Joguei-a na cama e picotei toda a roupa com uma tesoura de unha para dar mais trabalho. Suei-a e suei-me. Nesse dia, usei palavras tão horríveis quanto esse parágrafo cacofágico.

No dia em que fui mais bobo joguei na loteria acumulada e imaginei-me podendo comer toda a coxinha de catupiry que existe no mundo. Trabalhei durante a noite sem ganhar hora extra porque o trabalho enobrece o homem. E, naquele homem, votei acreditando que um dia as coisas iriam ser diferentes. A porta estava aberta. Ela nua, ofegante, na cama. Virou de lado. Enxaqueca.

No dia em que fui mais doce comprei flores com chocolate e dei para a primeira pessoa que vi. Um senhor narigudo que pedia centavos na esquina da padaria. Fiz "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" dependendo da posição do sol. Fiz "madame", "senhorita", "moça" e "dona" dependendo da posição das pernas. A cama, forrada de rosas, só cheirava ao teu jasmim. Cheirei-a toda antes de beijar. Beijei-a toda antes de abraçar e de deixa-la me ter. Nesse dia, não trepei. Só consegui fazer amor.

No dia em que fui mais sacana, dormi.

Biu não sabia nascer, por Palim

Era uma tarde chuvosa no ano de dois mil e cinco, duas mulheres dão a luz. Os meios de comunicação estão inquietos com a notícia, querem alimentar seus vorazes monstros sensacionalistas - é o bebê de número 50.000.000 que nasce na cidade de Jaquiritiba, capital do estado de Aldamira. Severina nasce as 16:40 num Hospital público qualquer, e doze minutos depois, as 16:52, nasce Milena no melhor hospital particular do estado. Filha de um casal da classe média, Milena é escolhida pela mídia e estampa os jornais como o 50.000.000° bebê de Jaquiritiba. Severina é pobre, filha indesejada, fruto de um estupro, negra, e sua mãe vive nas ruas.

Antes de abrir os olhos para o mundo, o mundo vê Milene, enquanto Severina vive dias angustiantes, lutando contra a morte, em busca da vida indesejada - ela sobrevive.
"Mary - a boneca que fala", é o presente que Milena ganha dos pais de presente no seu décimo aniversário. Severina, que não sabe quando é seu aniversário e nem sua idade, também ganhará um presente, uma irmã, filha de pai desconhecido. É que sua mãe, que, aparada por um papelão, sentada na esquina da Rua Maria com Avenida São João, com a barriga na boca, anuncia dores e diz que precisa ir para um hospital. Milena que segue para escola, do carro de sua mãe vê Severina - menina feia, magra e suja. Com uma peculiar crueldade, reservada somente as crianças, Milena recrimina a aparência da menina e volta-se à sua mãe com desdém.

As anos passam, e em dois mil e dezoito Milena tem treze anos. Ela lança beijos ao seu pai, enquanto assiste a uma aventura que seu pai trouxe da locadora de DVDs, deitada, abraçada a seu travesseiro de estimação, na aconchegante sala de áudio e vídeo do apartamento - à beira-mar - onde moram seus pais. Severina tem sua primeira experiência sexual, um estupro. Um homem desconhecido estuprou e engravidou Severina, gerando dentro de uma criança sem quaisquer referências familiares uma outra criança. Milena adormece tranqüila entre seu pai e sua mãe.

No dia seguinte, na escola, ela conta, a suas colegas com entusiasmo, as peripécias vividas pelo seu herói preferido, e suas amigas escutam com olhos esbugalhados. Ali próximo, num hospital público uma menina é atendida pelos médicos. Severina sofreu infecção vaginal e sérias complicações devido ao estupro. Ela tenta contar o ocorrido ao médico, mas nem mesmo ela entendera o que aconteceu, os médicos afirmam que a gravidez não foi interrompida. Ao meio dia Milena volta pra casa com sua mãe, mas não vê a menina feia de sempre.

Sete anos depois, numa manhã de março no ano dois mil e vite e cinco, Severino Biu, o primeiro de quatro filhos de Severina, então com seis anos e ainda sem registro, brinca de polícia e ladrão - a polícia é a vilã, e os ladrões são os heróis -, com Giba, seu irmão mais novo, e outros tantos meninos desfavorecidos. O lugar é uma grande avenida, o cruzamento da Rua Maria com Avenida São João, avenida com alto fluxo de carros. Milena, já adulta, para mais uma vez no mesmo sinal, e de dentro do seu carro observa atentamente o movimento, espiando a perigosa e pueril correria dos meninos. Vê aproximar-se uma mambembe que carrega dois filhos nos braços, e com indignação e reprovação nos olhos, nega-se a abrir a janela do carro para a preguiçosa mulher. Severina baixa humildemente os olhos suplicantes e segue para a próxima muleta. Ao sinal verde Milena acelera, enquanto pensa na entrevista sobre sua profissão, que acabara de conceder ao jornal. Em alguns instantes, ali onde estava Milena há poucos minutos, um acidente, Giba é atropelado e morto instantaneamente, o socorro médico foi ineficiente. Os jornais ignoram a notícia. Giba nunca existiu. Mas Milena, menina educada e esforçada é destaque, tem seus méritos reconhecidos, e estampa um belo sorriso em matéria que exalta os esforços dos jovens na medicina. Severina, que não sabe ler, é mãe de quatro filhos, todos os quatro indesejados, sendo dois fruto de uma estupro.

A cada ano as estações do ano apresentam características estranhas, as chuvas torrenciais descabidas alagam a cidade, Milena percebe isso. Ela teme pelo futuro de seu primeiro filho, que nasceu pouco depois de Milena virar balzaquiana. E no mesmo ano Biu faz dezesseis anos de idade, e abandona seus irmãos mais novos - deixando-os a mercê da sorte, e Severina morre. A medica que a atendeu não procura os parentes, devido ao corre-corre típico de uma emergência de hospital público, e Biu sai do hospital sem saber o porquê. Milena, da sala de emergência lamenta a morte de Severina, lembrando já ter visto a pobre mulher antes.

À noite Milene sai pra jantar com seu marido. Eles tem uma noite de muito prazer e muitas alegrias com seus verdadeiros amigos. Na volta pra casa eles param no mesmo semáforo da Rua Maria com a São João. Milena recorda as brincadeiras das crianças mambembes naquele sinal, lembrança que a remte ao sorriso de seu bebê Guila, que dorme com segurança em casa com a babá. Ela encosta a cabeça no vidro, estirando a sua mão esquerda até sobrepor a do marido, que repousa sobre a o câmbio em ponto morto. Ela suspira e tem um pressentimento. Aperta suavemente a mão do seu marido quando de repente vários estrondos preenchem o carro. Ao olhar para o lado, vê seu marido sendo abordado por dois rapazes que batem freneticamente com o revólver no vidro do carro. Milena e seu marido não reagem, mas são levados para um lugar remoto no subúrbio da cidade, onde são recebidos por uma grupo de jóvens criados sob leis que regem uma sociedade paralela. Ela é estuprada por Biu, e seu marido leva seis tiros, morrendo no local. Milena sobrevive e Biu é preso, mas morre na cadeia. Antes de morrer ele sabe que será pai, e então se orgulha de filho, irmão de bacana, que nascerá do lado oposto da imensa e invisível barreira social.

Menininha assustada, por Ana

Era uma vez, uma menininha assustada e tudo que ela conhecia era um lindo dia de sol. Era, também, o jambo doce colhido do galho mais alto do árvore no quintal da vó dela. Era o fusquinha azul turquesa no qual ela cruzava a cidade, pulando no banco de trás, com a mamãe no volante indo pegar o papai no trabalho. Mas o tempo chegou e tirou dela o dia de sol, o jambo e o fusquinha azul.

Era uma vez, uma menina assustada numa terra estranha com um monte de gente falando uma língua esquisita. Mas foi lá, naquela terra, que ela ouviu pela primeira vez um violino tocar, e se encantou, e quis tocar também. Foi lá, naquela terra esquisita, que ela deu os primeiros passinhos de valsa grudada nas pernas do pai, brigando para não sair do ritmo. Mas o tempo chegou e tirou a estranheza da terra, o violino da suas mãos e a dança dos seus pés.

Era uma vez, uma mocinha assustada que não entendia porque os meninos olhavam tanto para ela. Não entendia porque, agora, ela não podia mais ir a escola sozinha, nem porque na sala dela só tinha gente branca. Mas o tempo chegou e ela começou a olhar para os meninos também, entendeu porque não podia ir na escola sozinha, só não entendeu toda essa gente branca ao seu redor.

Era uma vez, uma moça assustada que mesmo com medo tinha certeza que ia mudar o mundo. Ela se apaixonou por um roqueiro cabeludo, e brigou com todo mundo, e saiu de casa batendo a porta. Mas o tempo chegou, e a certeza passou, e a paixão também, e ela fez as pazes com quase todo mundo, mas não voltou para casa.

Era uma vez uma mulher que podia tudo e era senhora da sua vontade, mesmo que lá no fundo ela ainda tivesse meio assustada. Ela tinha um emprego legal, e a sua casa era a mais alegre da rua. Até voar ela podia, já que saltava de avião. Mas o tempo chegou e ela perdeu o emprego, e a casa deixou de ser a mais alegre, e ela deixou de voar.

Hoje a mulher não tem mais medo, até isso o tempo já levou. A única coisa em que ele insiste em deixar para trás é toda a solidão do mundo que ela carrega apertada dentro do peito.

Sultanesa, por Siri

Era um amor com a sede da areia, imediato como a viagem da bala ao peito. Era um amor sem espaço para as palavras, secundados os carinhos, amor de soluços e mordidas. Você me bebia a gordos goles, nossas pernas confundidas eram uma dança de tropeços - você se forçando contra mim, e eu escorregando para você, como um desses anjos de asas sujas buscando a dureza do chão, na distração de deus. Você era a minha queda.

E acabava comigo em espasmos de sismógrafo, gritando palavras líquidas em você, nem era mais eu dentro de mim, o corpo sonhando, o rosto buscando o afago dos seus pelos. E eu era novamente o santo buscando o colo de deus, quando lhe abraçava, meu travesseiro de nuvens.
Mas você me devolvia a sua esquiva, recomposta do seu desejo. Os mesmos olhos tontos, tais e quais os de uma dada dona Silivana, não mais me fitavam, como antes. Nenhum beijo, nem um afago. Senhora do seu domínio, você buscava o descampado, os campos abertos. A mim restava a grama à pretensão de cama. Deitado em feto, via sua partida, renovada de si, afastando-se a pequenos saltos.

Banhado em seu cheiro, seus humores, fechava em meus olhos o seu nome, que minha boca nunca articulara. Você era criada para o mesmo destino de suas irmãs, para dar ao mundo sua fidelidade, seus filhos, seu leite, seu tempo (por fim, quem sabe, sua carne, seus ossos), nunca sua liberdade. Seu destino mesmo não era seu. Disso eu sabia e por isso perdoava a distância dos seus olhos, que traía a entrega do nosso tempo juntos, Sultanesa. Poupei-nos dos escândalos, a aberração do nosso amor desigual. Amei você em silêncio, tanto no abraço quanto na rejeição.

Até que o interesse oscilante que me dedicava tornou-se escárnio. Era agora um igual que agora você amava. Não mais esconsos como nos relâmpagos dos nossos encontros, mas num alarde, engalfinhados aos olhos de todos, uma declaração sarcástica, uma faca de zombaria no meu plexo. O outro, sua barba, seus cascos, era objeto da delicadeza que eu nunca tive, o prêmio que nunca habitou a minha estante. Tudo com a bênção de quem proibiria o nosso amor, caso houvesse. O sorriso complacente de seu dono, as doses fartas de ração indicando que você já alimentava-se por dois.

O sangue mordido na boca, tomei da mão parceira de um amigo e executamos, na calada, a vingança. O outro imobilizado pelos chifres, sacado de seu lar, embrulhado em lona. Depois, jogado amarrado numa laje fria. Depois, aberto aos berros a talhos de faca e eu banhando-me numa festa de sangue. Depois, servido dourado ao braseiro de chão, na festa domingueira, para a fome de convivas, seu incauto dono entre eles. E eu mordendo o osso até o tutano, farto de carne e vingança, planejando a visita de consolo que lhe faria mais tarde.

Thursday, October 06, 2005

O tempo é a minha casa, por Sama

Eu vivia repetindo que o tempo era minha casa, e tudo parecia simples, fácil e bom. Havia saído do amor inteiro, com o sentimento do ciclo que se encerrava, cada um para o seu lado, é a vida, tudo passa, tudo quebra, tudo cansa, como dizem os franceses.

Fui viver a minha vida, andar pelo mundo, como sempre quis, como sempre desejei, desde menino.

Mas o tempo sempre passa, me diz um amigo que não terminou o segundo grau, mas é o filósofo mais completo que conheço. Cada casa é um país, repetia ele. Então ficou tudo frágil, depois que o tempo e a casa se juntaram, como coisas indecifráveis.

Mas há dias - não sei explicar direito, e já não busco explicações -, comecei a sentir uma saudade imensa de ti, uma vontade de conversar as longas horas que sempre conversamos, saber de tua vida, o que tens feito, se continuas brigando com a vida como um animal selvagem e depois quieto, manso, delicado e triste.

Não sei de onde me apareceu tua foto e ela veio para o meu mural. Estão aqui teus dentões brancos, marfins que lambi tantas vezes, tua gargalhada ecoando pela casa vazia, este meu país desfigurado, por agora.

É visceral mesmo. Tu criaste raízes muito fundas em mim, e já não é questão de tentar explicar ou entender, mas somente de admitir. E por onde passo, vou rasgando o assoalho com meus pés cansados de tua ausência. Me surgiram mais cabelos brancos e lembrei que percebeste quando apareceu o primeiro fio, ironizando que a maturidade tinha chegado

E me veio a lembrança de algo da minha infância, não sei o motivo. Me veio, como vem um arrepio de emoção por uma flor na calçada. Lembro que eu fugia da agitação familiar, dos muitos irmãos sempre brincando, e ficava muito quieto, no quarto principal, onde estava a enorme cômoda, abrigo de tantas roupas e cobertas da família. Eu abria a última gaveta, tirava todas as roupas e ficava procurando algo. Minha mãe chegava à porta e perguntava, amorosa:

- "Estás fazendo o que, filho?"
- "Procurando uma coisa aqui, mãe".

E ela saia para cuidar do alvoroço dos outros.

E fica muito quieto, dobrando as roupas, mudando-as de lugar. Só muito tempo depois, descobri que eu buscava algo que não existia, somente para ficar comigo. Foi deste tempo a aproximação terna com a solidão: buscando coisas que não existiam.

Hoje amanheci assim, manco de teu sorriso, de tua voz, de teu corpo, da saliva. E pela primeira vez, senti que o tempo ocupava a minha casa de outra forma. Me veio o sentimento de estar encontrando coisas que nunca procurei.

Não sei qual intuição me empurrou em direção à porta, ainda sonolento da noite cheia de lembranças. Abri a porta sabendo quem estava do lado de fora, ansiosa e sem saber como seria recebida. Olhei para teu sorriso imenso, o vestido de chita que sempre me alegrou nas tardes de domingo, um vestido que tantas vezes tirei, para a nudez amorosa, os cabelos tingidos por brancuras do tempo. Estavas mais velha e tantas vezes mais bonita...

"Entre. A casa sempre foi sua", eu disse, já sorrindo.

Foi assim.

Thursday, September 29, 2005

Primeira corda
(edição zero do oitonós)

Teu corpo é minha casa, por Ana
Jornal Nacional, por Galego
O medo nos dentes do homem morto, por Siri
Chá-me, por Ivanzinho
O dia em que fui mais sacana, por Keures
O tempo mutante e sua percepção, por Palim
Uma valsa para abarcar o céu e a terra, por Zel

Teu corpo é a minha casa
Por Ana


Teu corpo é a minha casa
Onde eu brinco de faz de conta,
De ser criança,
De ser feliz na minha ingenuidade doce

Teu corpo é a minha casa
E nele passo horas embriagadas,
Noites iluminadas,
E dias sem respirar quase sufocando a minha lucidez

Teu corpo é a minha casa
E nele habitam meus sonhos mais secretos,
Meus devaneios mais concretos,
Minhas dores mais palpáveis que se instalam em cada canto da minha alma

Teu corpo é a minha casa
E nele nasce a minha luz,
Mas é nem também onde ela se enfraquece,
Onde apagam se as esperanças me deixando numa escuridão sem fim

Teu corpo é a minha casa
E nele procriam os meus pensamentos mais perversos,
Meus desejos mais sacanas, Minha vileza mais absoluta.

E no teu corpo, que é a minha casa, escondo a minha solidão.

Jornal Nacional
Por Galego


boa noite carioca é palco de selvageria promovida por gangues de traficantes nigerianos presos com 100 quilos de cocaína no aeroporto afonso pena de morte para crimes hediondos é aprovada no congresso brasileiro de medicina discute possibilidades abertas pelos estudos das células-tronco de ipê rôxo usado na construção de moradias populares se revoltam contra demora no atendimento em posto de saúde pública no brasil está na uti do hospital do vaticano divulga última carta escrita pelo papa joão paulo segundo a meteorologia, teremos um fim de semana agradável, com pancadas de chuva pelo interior encanta turistas, com roteiros por matas virgens e antigas fazendas do ex-presidente fernando collor em alagoas e minas gerais são invadidas por integrantes do movimento dos sem terra radicaliza ações e apela para a violência urbana é o problema que mais preocupa os brasileiros, diz pesquisa do ibope indica polarização nas eleições do próximo ano entre o prefeito césar maia e o presidente lula faz mais um peonunciamento sobre a corrupção e assegura que o Brasil vai ter assento permanente no conselho de segurança da ONU promete plano mundial de combate aos terroristas ligados à al qaeda detonaram uma bomba em falujah, em frente à embaixada da russia recebe os delegados do comitê olímpico internacional curte semana de líder do campeonato brasileiro da primeira divisão de artilharia do exercito americano se instala no Paraguai reclama junto à Fifa contra a exclusão de suas equipes na libertadores das américas unidas em torno das negociações de livre comércio espera recorde de vendas neste natal é o point da estação mais quente dos últimos anos, causando estiagem e prejuízo atinge plantações de arroz com lentilha é o prato do dia internacional da mulher é marcado por marchas, frevos e sambas compõem o repertório do grupo paulista cocada boa noite

O medo nos dentes do homem morto
Por Siri

O cigarro aceso é uma lanterna de afogados, é um apoio, um gancho cravado no escuro da noite. É a ele que me agarro, aqui, da minha janela de observação, cobrindo com a vista os abraços dos muros nos quintais. É uma ronda regular que faço, quando a cidade é calada pela madrugada. Venho aqui e observo o meu subúrbio, numa conversa sem palavras, num afago sem toque, assenhoreando-me de suas histórias.
Lá, a pequena casa de um par improvável - ele, uns sessenta anos, ele outro, quase isso -,que toda sexta-feira, na alta noite, dão asas a um desusado passa-discos, com músicas que não se usa mais ouvir, acalantos de um amor encolhido de frio. Ali, o lar de uma trindade unida por uma liga invisível. Pai, mãe e filha, cada qual que olhe pela sua janela, esperando reconhecer no além-vidro um chamamento para fora das paredes pesadas demais. Aqui, bem em frente ao meu rosto, com a proximidade incômoda de uns oito metros, o apartamento do louco da rua, conservado ainda vazio desde que ele se matou, no mês passado, como o eco insistente do seu último grito.
Não eram todas as noites em que ele estourava-se a gritar, não com uivos, lamentos de dor ou saudade, nem com berros de medo, chamamentos de ajuda. Eram mais, e eu acompanhei algumas destas, discussões exaltadas com o vazio. Começava com o apagar de todas as luzes do imóvel, depois o homem acendia uma lanterna e errava pela casa, como se procurasse algo, o facho de luz oscilando nervoso por trás das janelas fechadas. Era quando a lanterna se calava, geralmente neste quarto cuja vista remete ao lugar em que agora estou, que ele principiava a conversa, composta numa língua estranha, própria, plena de grunhidos e engasgos.
Aos poucos o tom ia subindo em contrariedade, em impaciência, e o homem encrudescia a entonação. Primeiro, num tom ameaçador, depois, em frases curtas, gritadas como quem ordena a um cão desobediente que fique onde está, como quem expulsa de casa um visitante, seguiam-se as pancadas, que eu interpretava como murros nas paredes, depois de objetos caindo ao chão, às vezes vidro sendo quebrado. E depois, a ausência de respostas do silêncio mais absoluto.
Se esses acessos regulares atestavam a sua pouca sanidade, no trato pessoal ela era imperceptível. Nos inevitáveis encontros nessas ruas, era um homem cordial, embora de poucas palavras e de nenhum convívio com os vizinhos. Mas, até aí, eu também nunca me agradei da intimidade obrigatória que impõe a vida suburbana. Afora seus acessos noturnos, pouca diferença havia entre nós dois. Isso me assustava? Às vezes, nestas minhas vigílias noturnas, encontrávamos, cada qual em sua janela. Ele me encarava com o semblante triste, que eu sabia ser um pedido de ajuda lançado com uma corda. Eu fingia não perceber, apressava uma displicente saudação com a mão livre, encerrava o cigarro na metade e me recolhia. O homem permanecia lá, assumindo seu turno na ronda.
O que quer que carregasse, que escavasse as paredes da sua cabeça, era muito mais do que podia. Um dia, ele desistiu. Foi encontrado dois dias depois do último surto, aparentemente, uma artéria rompida inundou seu cérebro, a pulsação como um Sansão cego, derrubando suas paredes. Um parente distante teria tratado das questões do velório, ao qual eu fiz questão de não comparecer. Seus pertences foram levados, o apartamento trancado para uma incerta locação posterior. O silêncio tornando-se seu único habitante.
Nem tanto. Claro que se criaram as histórias. O trágico sempre se faz perene, as pessoas apegam-se a ele como a um cigarro numa noite silenciosa. Nas conversas nas filas da padaria ou da farmácia, comentava-se que o apartamento não descansava assim, que, à noite, ouviam-se pequenos barulhos, sussurros, pequenos fios de choro. Falava-se na urgência de uma missa ou intervenções religiosas outras, de acordo com a crença do requerente. Irritavam-me as suas mentes tacanhas, agarravam-se ao destino do louco para preencher seus próprios vazios, sua estupidez fazia mais barulho que os gritos do meu antigo vizinho.
Assim, eu me sentia com razão, até uma hora atrás, quando um grito me alcançou durante o sono e, na borda da consciência, escutei a voz do louco falando baixo, no meu ouvido "Desculpe, eu não pude protegê-los". Eu acordei e era todo um latejar.
Deixar-me impressionar pela idiotice geral e vê-la ocupar o meu descanso irritou-me profundamente e me jogou para fora da cama, para o meu posto de observação. O cigarro acaba em poucas tragadas e eu me surpreendo olhando fixamente para o apartamento, que alardeia o seu silêncio.
"A luz de um morto não se apaga nunca", a citação me vem antes ou depois de ver o facho luminoso através da janela de um imóvel vazio. A lanterna transita pelos cômodos como há um mês não fazia. Acende-se na sala, roda paredes e tetos, avançando para o primeiro quarto, às vezes projeta-se para fora do recinto, iluminando uma árvore ao redor. Após sumir por um instante, ela chega ao último quarto, este que fica bem à minha frente. No silêncio pleno, ela agita-se e ilumina o suficiente para que eu possa ver a silhueta que se aproxima da janela.
A princípio, apenas sua forma é discernível, mas aos poucos o seu rosto é clareado pela própria luz que carrega. Separado de mim por oito metros de um ar carregado, o louco da rua sorri para mim. Penso em fechar os olhos, correr, espantá-lo com um grito ou me despedir com a tradicional saudação displicente, mas me encontro preso à sua presença, esquadrinhando cada centímetro do seu rosto retesado, os olhos esbugalhados, as narinas arqueadas, os dentes inteiros à mostra. Só então percebo que não é com um sorriso que ele me saúda.
Seus dentes estão trincados de medo, a luz oscila, indicando que a lanterna treme na sua mão, seus olhos, que viram o lado escondido de tudo, são a expressão de um alerta. Mas não estão, como primeiro pensei, fixos nos meus. Sua vista passa centímetros por sobre o meu ombro e fita, com terror, algo às minhas costas. Somente então escuto a voz que sussurra algo numa língua estranha, atrás de mim.

Chá-me
Por Ivanzinho

Como você tira a camisa-vestido, que passa por cima da cabeça e revela cintura umbigo barriga peito pescoço queixo nariz olho. Estica os braços e é Deusa. Joga o pano longe bem longe bem longe. Lá longe onde só aparece amanhã de manhã. Amassado atrás de um imóvel móvel.
Como maçã que é a fruta do amor e do sexo e da paixão e do pecado. Que estrala na boca e faz táqui quando eu mordo e croquecroque quando eu mastigo. Vermelha suculenta que tem uma aguinha que escorre pelo canto do meu lábio e você morde minha bochecha limpando e sujando e limpando e sujando e limpando e sujando.
Como essa menina elegante de pouca maquiagem e de muito rebolado. Passa fazendo pirraça essa moça da raça negra ou da roça verde. Carrega seu balde pesado no coco colado não cai nem com buraco nem pedra bêbada nem poste nem olho nem olhado.
Como nu telefone que toca a música que você mandou e que é de família na cabeça dos outros, mas na minha é pé é batata é joelho é coxa é bunda é cintura é espinha é pescoço é espinha é cintura é bunda é coxa é joelho é batata é pé.
Como você. Como beija macia e se deita inteira na beira da cama que se faz com meu corpo jogado na lama que a gente fez outro dia de suor de saliva de você e de mim.
Como tudo o que você faz você quer você é você vê você sente.
Como tudo em você é in, decente.

O dia em que fui mais sacana
Por Keures

Gozado, né? Quando a gente pensa na nossa vida de uma forma geral, raramente pensa nos momentos em que não foi vítima, em que atacou de vilão. Por quê? Sei não. Talvez pra não sofrer ou pior - pra não pegar gosto e acabar virando um filho da puta compulsivo. Afinal, como toda coisa proibida ou socialmente não bem vista, uma sacaneada pode dar muito prazer ao "praticante".
Mas espera um pouco, que eu tô começando a me desviar do assunto. Vai ver que é o tal do inconsciente, querendo evitar que eu me entregue, que eu não saia por aí contando uma certa historinha sobre como pude ser bem escrota quando quis. Pois é! Logo eu!
(Aqui vale fazer um "à parte" pra esclarecer o meu próprio espanto. Eu sou uma daquelas mulheres certinhas, politicamente corretas, preocupadas com o bem-estar alheio e com cara de... ahn... de professorinha, segundo alguns. Tenho uma fala mansa, uns olhos tristes e um excesso de "por favores" e "obrigadas" que me fazem ser conhecida como a típica "gente boa").
Há uns 6 ou 7 anos, eu conheci um carinha na noite. Como tantos outros, um carinha legal, bonitinho, inteligente, bom papo e bom amasso. Nada sério, eu achava. Mas ele não. Inexplicavelmente, o cara se apaixonou sem nenhum esforço por mim. Sabe uma daquelas coisas que lhe caem no colo de mão beijada? Foi justamente o que aconteceu.
O problema, meus caros, é que a recíproca não foi verdadeira. Só que eu, encantada por ter alguém apaixonado por mim e tão capaz de fazer minhas vontades sem questionar, mantive-o por perto. Morando sozinho em Recife, sem muitos amigos, ele foi-se apegando e eu, comodamente, deixando.
E assim passaram-se dois meses. O bom rapaz resistiu bravamente. Dois meses sem sexo, sem muito apego. Todas as vezes em que ele tentava cair fora da roubada que farejava, eu me chegava toda meiga, cheia de amor pra dar (mas nunca dava).
Até que um dia, um dia que nunca vou esquecer, ele ligou pra mim perto do meio-dia chorando. Tinha sido demitido, teria que voltar pra sua terra natal se não encontrasse emprego rapidinho e estava pra lá de carente. Me pediu colo, me pediu consolo, me pediu pra ir até a sua casa.
E eu, em dois minutos, lhe passei uma rasteira pelo telefone: disse que não iria, que não estava apaixonada, que sentia muito, mas não queria nada dele. Fria, fria. Como só uma boa sacana consegue ser num momento desses.
Sem muita paciência, me preparei pra desligar. Não queria ouvir nada dele. Só queria dizer aquilo e desligar, me livrar daquele cara. Mas ele me pegou antes e falou. E falou da minha escrotice, da minha frieza, da minha incapacidade de me apaixonar porque não me entregava. E que eu era uma boa canalha. Uma boa filha da puta.
Não me abalei. Não na hora. De alguma forma, eu me sentia vingada por todas as vezes em que havia perdido o chão, em que eu havia dançado sem aviso-prévio. E me senti bem. Tão bem que poderia ter feito aquilo um milhão de vezes novamente. Tão escrotamente bem que evitei pensar nessa história nos últimos anos.
Mas outro dia, o tal do inconsciente (sempre ele) me pegou desprevenida e me relembrou aquele dia. E a "gente boa" que mora dentro de mim teve medo – divide apartamento com uma canalha que sabe enterrar sonhos.

O tempo mutante e sua percepção
Por Palim

Imagine a materialização e registro do tempo e da vida num dado momento, lugar, e tudo o que se é - formato, cheiro, idéias, sensações, cores, ideologia, economia, política entre outras infinitas coisas mais que acontecem no universo.
Conceba o tempo, esmiuçando-o em milésimos de segundos e criando o que vou chamar de FM (frações de milésimos). Registre cada momento, ou FMs, imaginando que, cada um dos milhares de registros funcione mais ou menos como uma fotografia "multisensorial", onde se guarda todos os aspectos do momento no universo - cheiros, idéias, sensações e situações -, visualize o tempo como uma pasta de arquivos. Todos os FMs representam um arquivo salvo: "ano.dia.hora.min.seg.mil.ft". Organize os arquivos em ordem numérica, e filosofe assim, sobre a possibilidade real de viajar no tempo.
O tempo que rege nossas contas é o mesmo tempo para a inspiração.
Um minuto hoje, não valia o mesmo minuto a cinqüenta anos atrás, é a inflação da percepção do tempo. É um processo de evolução e seleção. Somos tangidos coletivamente, inadvertidamente dentro de uma corrente social em que cedemos o nosso tempo para pertencermos a algo, a alguém. E assim nossos valores são atropelados e mutilados, e ficamos nus, despidos de valores sociais. Então novos, e sedutores valores são apresentados, impostos impetuosamente pelos tanques da doutrina do mundo capitalista. Internet, celular, fax, carros velozes, trens, aviões. Quanto mais a tecnologia apressa nossa comunicação e locomoção, menos tempo temos para nós mesmos.
Onde foram parar os clientes das Casas José Araújo e seus tecidos?
Nossas necessidades básicas são, alimentação, saúde, abrigo e amor, o resto são futilidades existencialistas e materialistas, são fundamentos ensinados. E o ser humano ocupa o seu tempo, a ponto de não ter tempo para si próprio. Essa é uma mazela social contemporânea, uma nefasta e execrável mutação dos hábitos e valores na humanidade, imposto pela ditadura do capital.
Desde a primeira lembrança que guardo da minha vida (aos sete anos) até hoje, passaram-se vinte e um anos. O meu tempo desde então teve vários formatos, e eu ainda não consegui entende-lo, ainda não aprendi a administrar esse detalhe. Talvez esteja errando em tentar, o certo, quiçá, seja, deixá-lo fluir - mesmo discordando da sua utilização. Enquanto somos jovens não temos tempo para fazer o que gostaríamos, e quando envelhecemos temos tanto tempo, que nos forçamos a gostar de coisas só pra preencher esse vazio que o relógio nos reserva.
Tudo bem que precisamos de algo para reger nossa civilização, para que os mecanismos sociais funcionem apropriadamente dentro de um padrão. Concordo. O que discordo é a maneira como o ser humano vem encarando o tempo. Se o tempo gasto no capitalismo fosse usado para fins humanitários, o tempo seria um presente, não uma commodity.